quinta-feira, 31 de março de 2022

Ninja - A Máquina Assassina (Menahem Golan, 1981): é canastrão mas passa.


Várias coisas tornaram Ninja - A Máquina Assassina numa escolha perfeita pra essa manhã de sábado (19/03, data em que escrevo esse texto) rsss. Uma delas foi a nostalgia que esse tipo de entretenimento me proporciona, sempre me levando a um ponto muito específico da minha infância. Outra coisa foi a presença do ator italiano Franco Nero no elenco, esse hino LGBT dos anos 70/80, sempre muito confortável de olhar rsss, mas esses méritos são artificiais demais para dizer alguma coisa sobre o filme.

Com pouca pesquisa eu entendi que esse Ninja foi UM DOS responsáveis pela onda de filmes de artes marciais que acometeu Hollywood naquela virada de década. Mas com isso eu também não estou afirmando que essa é uma das produções definitivas do gênero, e tampouco está entre as melhores. Principalmente porque a “coisa” hollywoodiana está presente demais para serem desconsideradas.

A começar por Ninja ser um produto estadunidense, que se orienta pela perspectiva estadunidense. O ninja que protagoniza essa aventura, Cole, é interpretado pelo ator Franco Nero, um italiano louro e de olhos azuis, e já na primeira cena - uma longa cena de caça entre dois ninjas, temos uma amostra da sua arte marcial. A cena em questão, por sinal, é até interessante. Logo em seguida descobrimos que a tal perseguição é a “prova final” de um curso de formação em ninja rsss e que nosso ocidental foi aprovado com louvor. Logo depois descobriríamos que o curso era de Ninjutsu, numa das primeiras referências à essa arte marcial no cinema.

Logo após o curso, o herói viaja do Japão até as Filipinas para visitar o amigo Frank Landers (Alex Courtney), ex-companheiro de guerra que vive numa propriedade rural com a esposa Mary-Ann (Susan George). Imediatamente ele descobre também que o casal de amigos tem sido coagido por um empresário do ramo da saúde, o excêntrico Charles Venarius (Christopher George), devido o petróleo, olha só, que há sob sua propriedade. A aventura começa quando o tal empresário engrossa as investidas contra o casal e o ninja Cole resolve ajudá-los. 


Daí pra frente tudo é um show de canastrice por parte da direção, roteiro, atuações e etc. Talvez aproveitando a onda de filmes orientais sobre artes marciais que se assentava em território estadunidense, as pequenas produtoras hollywoodianas resolveram apostar nesse que se tornou um dos filões mais bem quistos pelos “nerds” de cinema em geral (ao lado do terror e faroeste).

O próprio diretor escolhido para o longa, Manahen Golan, era um cara que já havia passado por todos esses gêneros e havia feito alguns filmes interessantes no seu início de carreira em Israel, ainda na década de 1960. Franco Nero, astro do western italiano, também era um nome de peso que reforçava a credibilidade de Ninja - mas não acho que tenha dado certo.

Olhando de hoje, Ninja - A Máquina Assassina soa como mais um produto hollywoodiano que tenta capitalizar em cima de uma moda determinada. O filme é cheio dos vícios de Hollywood, além de ser colorido de maniqueísmo ocidental. A tentativa de estabelecer um argumento razoável se perde entre lutas falsas (com os dublês fazendo praticamente tudo) e péssimas atuações. Mas como eu já disse, é divertido pra um sábado de manhã despreocupado.

Nota: 2,8/5



Ficha Técnica:

Título original: Enter the Ninja
País: Estados Unidos
Ano: 1980
Direção: Menahem Golan
Roteiro: Dick Desmond
Produção: Judd Bernard, Yoran Globus
Produtora: Golan-Globus Production
Elenco: Franco Nero, Susan George, Sho Kosugi

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sexta-feira, 25 de março de 2022

O Grande Lutador (Robert Clouse, 1980): podia ser menos comédia e mais ação.

O ano de 1980 marcou a primeira investida de Jackie Chan no cinema hollywoodiano, com o lançamento de The Big Brawl - ou O Grande Lutador, como foi lançado no Brasil. A essa altura, Chan vinha de uma série de produções de artes marciais, todas produzidas em Honk Kong, em que atingiu um reconhecimento razoável com o filme Drunken Master, lançado dois anos antes. 

Para a direção, foi escalado Robert Clouse, que havia dirigido Bruce Lee no clássico “Enter the Dragon'' (1973). Havia a expectativa de recrutar um novo Bruce Lee, e Drunken Master, àquela altura, era um sucesso nos drive-ins e cinemas das Chinatowns norte-americanas. Chan aproveitou a oportunidade e fez sua inserção no cinema hollywoodiano já como protagonista. 

Em The Big Brawl, Jackie é Jerry, filho "espevitado" de um dono de restaurante que é ameaçado pela Máfia de Chicago na década de 1930. Jerry, no entanto, cede à chantagem dos mafiosos (que sequestram sua cunhada), para que participe de um campeonato de luta, onde seu principal adversário será Billy Kiss, um lutador conhecido por dar um “beijo de morte” em seus oponentes. 

Bom, não é um filme que nos oferece o que podemos extrair de melhor em filmes de artes marciais. Alguns clássicos (ou clichês), como o herói do kung fu que deseja vingar seus afetos, estão presentes, mas de forma pouco consistente. O personagem de Jackie é bastante infantilizado, com valores familiares rígidos, e até aí ok. Vejo apenas como falha de roteiro mesmo que ele, com esse perfil, tenha simplesmente ‘deixado pra lá’ a Máfia que ameaçou seus pais, sequestrou sua cunhada e o coagiu após a vitória do campeonato. Um simples “tudo ficará bem agora” dito de longe em meio a uma multidão é suficiente para Jerry, enquanto é aclamado pelo público pela vitória. 

E assim como na maioria desses filmes, o trabalho como um todo é um pretexto para Chan exibir suas habilidades marciais, e ele dá um show, não apenas em cenas de luta mas em outras, como a cena de abertura em que ele resolve escalar as estruturas de uma grande ponte onde corre um grande tráfego de veículos, apenas para se exibir para sua namorada loira. 

Chan também atuou como “action director” nesse filme, apesar de que, pelo que pesquisei, ele tinha menos controle sobre as cenas de ação do que tinha em suas produções de Honk Kong. O tom de comédia é bastante acentuado, sendo as cenas de lutas os principais momentos de humor do filme. 

Jackie Chan teria utilizado o reconhecimento gerado pelo seu ingresso em Hollywood para bancar novas produções em Honk Kong. Ainda em 1980, ele escreveu, dirigiu e atuou em The Young Master, sendo seu primeiro trabalho para a produtora Golden Harvest. Nos Estados Unidos, o tom de comédia marcou boa parte de sua filmografia, e esse The Big Brawl é um bom exemplo da direção que seu trabalho tomou nos EUA, ainda que não seja o melhor.

Nota: 2,8/5




Ficha Técnica


Título original: The Big Brawl

Ano de lançamento: 1980

País: Estados Unidos

Direção: Robert Clouse

Roteiro: Robert Clouse

Produção: Raymond Chow, Fred Weintraub

Distribuição: Golden Harvest (Honk Kong), Warner Bros. (EUA)

Elenco: Jackie Chan, Kristine DeBell, Mako, Ron Max, David Sheiner, Rosalind Chao, H.B. Haggerty


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segunda-feira, 21 de março de 2022

Licorice Pizza (Paul Thomas Anderson, 2021): as fofuras e chatices de um amor juvenil.


Fui com muita expectativa ao tal Licorice Pizza, trabalho mais recente do magnífico Paul Thomas Anderson, e que estreou este mês nos cinemas de todo o Brasil. PTA é um diretor que sempre gera expectativas: ele é queridinho dos críticos de cinema, e este ano, em especial, espera-se que leve uma estatueta do Oscar pela sua nova empreitada. Em Licorice Pizza (título que faz alusão a uma clássica franquia de lojas de discos de Los Angeles, California), entretanto, PTA nos entrega aquele que talvez seja o menos denso entre todos os filmes de sua carreira. O que temos aqui é um romance leve e divertido, definido  pelos percalços que marcam a transição dos jovens para a vida adulta. 

Na trama, Gary Valentine (Cooper Hoffman) conhece e se apaixona por Alana Kain (a estreante Alana Haim), que sente dificuldade em ceder ao amor do jovem, mesmo com a evidente atração que sente. Um enredo simples, mas recheado de obstáculos, como toda comédia romântica que se preze. A começar pelo fato de Gary ter apenas 15 anos, e Alana, 25. Ela se acha muito adulta para ele, e que merece mais. Sua desorientação na vida, agravada pela influência da família religiosa, colocam-na sistematicamente nas estradas erradas quando se trata de amor. Gary, por sua vez, de criança não tem nada. Ator de programas infantis desde a infância, já possui certa carga profissional e uma vida meio que estabelecida, com os pais trabalhando para sua carreira, e um tino empreendedor excêntrico que não o deixa parar quieto.

Ao conhecer Alana, esta se torna imediatamente sua aliada, parceira de negócios e companheira, ainda que busque outras parcerias românticas por ser “velha demais para Gary”. A ligação entre os dois é evidente, mas como em todos os filmes desse gênero, resiste até o fim antes de se “consolidar”. Ambos carregam seus fardos e anseiam pela liberdade que só o amor parece proporcionar, e enquanto a maturidade libertadora não vem, contra toda a opressão e complexidade que a vida adulta empurra em sua direção, a saída para ambos parece ser a mesma: correr. Fugir. 

A despeito do roteiro leve, Licorice Pizza traz consigo todas as características que já marcam as produções de PTA: é um filme um pouco longo, de produção requintada, com uma atmosfera nostálgica que remete a outros tempos e outros lugares. A densidade psicológica, também característica dos trabalhos do diretor, se faz menos presente aqui, mas ainda existe, com a comunicação entre os personagens, e principalmente entre a dupla de protagonistas, acontecendo de muitas maneiras para além dos diálogos "falados" - a marca das conexões verdadeiras.

Do roteiro, pululam referências que nos embarcam numa viagem à California/Los Angeles/Hollywood de 1970, com seus artistas perturbados e tendências excêntricas. Esse cenário é reforçado pela fotografia ensolarada que nos remete diretamente a esse lugar - algo que já foi explorado pelo próprio PTA em outros filmes seus, como Inherent Vice, e a trilha sonora, recheada de clássicos da época, acentua a leveza da trama, tornando o assento do cinema num lugar muito confortável de se estar durante toda a reprodução.

Como já disse, há uma grande expectativa em torno de Licorice Pizza e a possibilidade de três Oscar este ano. PTA já é freguês dos Festivais de Cannes, Berlin e Veneza, mais o prêmio estadunidense nunca veio, e acredito que não vá ser dessa vez (pelo menos não na categoria de Melhor Filme). Licorice Pizza é leve e soa despretensioso, o contrário de grande parte das escolhas da ‘academia’ nos últimos anos, que tem preferidos produções com temas mais polêmicos ou atuais (se o enredo fosse o contrário do que é, com um cara mais velho numa relação com uma garota mais nova, não sei….). Como uma sessão da tarde “chique”, o novo trabalho do PTA é pra se deliciar despreocupadamente, algo sem muitos enigmas a serem desvendados, mas, como sempre, de encher os olhos - e o coração.

Nota: 4,5/5



Ficha Técnica

Título original: Licorice Pizza
Ano de lançamento: 2021
País: Estados Unidos
Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Produção: Adam Sommer, Sarah Murphy, Paul Thomas Anderson
Distribuição: United Artists, Universal Studios
Elenco: Alana Haim, Cooper Hoffman, Sean Penn, Tom Waits, Bradley Cooper, Bennie Safdie

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quarta-feira, 16 de março de 2022

A Morte Convida para Dançar (Paul Lynch, 1980): slasher ralo, mas dá pra curtir.


Eu poderia afirmar com alguma segurança que a decadência do gênero “serial killer” no cinema de horror começou com Halloween, curiosamente, um dos trabalhos que julgam marcar o início dessa onda - que virou "slasher". Apesar da praticidade genial que aquela que talvez seja a obra máxima de John Carpenter trouxe, ela veio com uma demanda do público por mais produtos como aquele: rápido, com sustos fáceis, muita carnificina, e um mal que poderia ser ou não imortal. 

Felizmente nessa época, algumas produções, principalmente aquelas que alcançaram grande público, eram realizadas com alguma preocupação com o seu produto final. O hoje clássico Prom Night, ou A Morte Convida para Dançar, é um desses exemplos: veio justamente na onda desencadeada por Halloween, com o mesmo tipo de enredo e até a mesma estrela - Jamie Lee Curtis. 

A trama não poderia ser mais básica: um grupo de crianças, num bullying tosco num prédio abandonado, mata sem querer uma colega, e com medo, prometem nunca tocar no assunto. Como se fosse um Eu Sei o que Vocês Fizeram No Verão Passado infantil. Alguns anos depois, uma estranha figura mascarada e portando um machado passa a assassinar cada um dos envolvidos no acidente.

O enredo é simples mas eficaz, não fosse a escolha dos famigerados bailes de formatura das high schools estadunidenses como pano de fundo para a história. De todos os slashers que já vi, esse é o que mais me inspirou preguiça, vendo dos dias de hoje, devido a bobagem no roteiro, envolvendo disputas de patricinhas pela coroa do baile de formatura e competição por causa de macho. 

Ainda assim, o filme se preocupa em criar um bom clima de suspense, e nos entrega cenas realmente boas (como a morte da suposta vilã da turma de amigos - uma cena de perseguição muito boa, que nos remete ao jogo de gato e rato entre Gale Weathers e o Ghostface em Pânico 2). As tomadas dos ambientes vazios da escola na noite do baile também são de arrepiar. 

O roteiro possui alguma sutileza. É interessante ver como a líder do grupo na infância é colocada como megera na fase “adulta”, e como todas as suas amigas da época do acidente a deixaram e se tornam amigas da irmã (Jamie Lee Curtis) da vítima fatal do acidente. O único garoto da turma, inclusive, passou a ser namorado dela, e vive um tormento interior querendo confessar sua parcela de culpa na morte da irmã da namorada. Sobre ele e os outros, ficamos sem saber se é amizade ou se é culpa, mas o fato é que são eles, os personagens secundários, o que há de melhor nesse filme. Há ainda uma tentativa de inovar no plot final, e até a presença de Leslie Nielsen no elenco, mas mesmo assim o babado não engrena. 

Muitas tramas pueris e direcionamentos tolos, que nos deixa sem saber se o filme quer ser um Embalos de Sábado à Noite ou um Carrie. Jamie Lee Curtis só brilha nos momentos finais e na dispensável cena de dança - coberta de bobagem juvenil. Ao final do filme, fica a sensação de que a tentativa de fazer um slasher na cena disco deixou a desejar, sobrevivendo hoje apenas como “mais um” do período clássico do cinema slasher. Encontra-se disponível no Darkflix e Youtube.

Nota: 3,2/5



Ficha Técnica

Título original: Prom Night
Ano de lançamento: 1980
País: Canadá
Direção: Paul Lynch
Roteiro: William Gray
Produção: Peter R.Simpson
Distribuição: Astral Films
Elenco: Jamie Lee Curtis, Michael Tough, Anne-Marie Martin, Casey Stevens, Judy Cunning, Mary Beth Rubens, Leslie Nielsen.

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sábado, 12 de março de 2022

Predadores Assassinos (Alexandre Aja, 2019): "natural horror" eficiente


Alexandre Aja é um nome que vem despontando na direção de horror, e já nos presenteou com alguns bons itens do estilo nos últimos anos. Um de seus mais recentes trabalhos, Crawl, disponível na plataforma Netflix, é mais um exemplo que comprova a crescente qualidade do trabalho realizado pelo diretor francês, que tem se destacado cada vez mais entre os realizadores do gênero.

Crawl, lançado no Brasil como Predadores Assassinos, é qualificado no wikipedia como “natural horror movie”, mais um verbete criado, não apenas para aumentar a lista, agora gigante, de categorizações e subgêneros do terror, mas para designar aqueles filmes em que a natureza surge como principal antagonista da história. O filme narra a história da nadadora profissional Haley Keller (Kaya Scodelario), que vai, literalmente, nadar com jacarés para superar antigos traumas familiares.

A trama começa com o anúncio da chegada do furacão Wendy, na Flórida. Enquanto todos os habitantes de Coral Lake são obrigados a evacuar e fugir da tempestade, Haley, que não tá dando muita moral para o perigo, decide ir à antiga casa de sua família procurar o pai, que está desaparecido. Quando chega em seu antigo lar, descobre o pai gravemente ferido no porão, e um enorme jacaré, responsável pelo ferimento. Um jacaré não, vários. E enquanto a tempestade derruba as casas e destrói tudo do lado de fora, Haley e seu pai, Dave (Barry Pepper), vivem uma intensa e claustrofóbica aventura no porão tentando fugir desses jacarés antes que a tempestade inunde todo o lugar.

A história é simples mas o bom roteiro e direção transformam esse em um filme gostoso e agradável (rsss) de assistir. Num primeiro momento podemos achar que os jacarés são os grandes vilões, mas é uma trama sem vilões. A natureza como um todo dá seu show, visto que a tempestade também tem seu papel, armando todo o cenário para as situações de tensão que se seguem. A dinâmica dos animais (em CGI) também gera muitos momentos positivos: as duas primeiras aparições dos jacarés vem com boas doses de susto, e certamente angaria muitos pontos para o filme junto ao espectador. 

A cenografia também é bem realista, aprofundando o estado de catástrofe que, curiosamente, se amplia após os sobreviventes deixarem o porão, um ambiente diminuto se comparado ao ambiente externo. O roteiro elaborado pelos irmãos Michael e Shawn Rasmussen não apresenta grande genialidade mas também não agride. É eficiente ao alinhar os dramas pessoais dos personagens à ação desenvolvida em cena. É redondo, e não deixa muita margem para grandes elaborações. 

De um modo geral, Crawl é um bom filme, de um diretor em plena ascensão e que ainda está desenvolvendo sua personalidade. Vindo de uma série de remakes de filmes clássicos (Hills Haves Eyes, Piranha, Maniac, e outros), Alexandre Aja aqui aposta num natural horror, se assim for considerado, que bebe muito da fonte de outros clássicos, como Jaws, não inova, mas oferece o que o estilo tem de melhor. A tutela de Sam Raimi na produção é, a meu ver, garantia de qualidade e diversão.



Nota: 4/ 5


Ficha Técnica

Título original: Crawl
Ano de lançamento: 2019
País: Estados Unidos
Direção: Alexandre Aja
Roteiro: Michael e Shawn Rasmussen
Produção: Sam Raimi, Craig Flores
Distribuição: Paramount Pictures
Elenco: Kaya Scodelario, Barry Pepper, Morfydd Clark

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terça-feira, 8 de março de 2022

Pânico (Wes Craven, 1996): o slasher absoluto.


Pânico foi a porta de entrada de muitos para o gênero terror. A ideia de um serial killer mascarado assassinando jovens no auge da puberdade já não era novidade pra ninguém, e, se formos considerar, era algo bem distante de nós, brasileiros, que não vivemos em subúrbios, não temos o costume do acampamento na beira de lagos, nossas lendas urbanas dificilmente envolvem seres de carne e osso, e sem contar que nossos poucos serial killer documentados geralmente são párias sociais que acabam presos ou mortos pela polícia, e não adolescentes mimados em busca de vingança (mas ainda há as Suzanes Richthofens da vida).

O filme de Wes Craven, entretanto, foi responsável pelo resgate do subgênero slasher, ao trocar a pouca seriedade que essas produções se davam na década anterior, por um jogo metalinguístico que transformou o slasher típico numa aventura investigativa, quase intelectual - nerd, tentando aqui ser mais certeiro. Wes, vale lembrar, vinha de uma bem sucedida produção na década de 1970 que o levaram ao status de ícone entre os realizadores do gênero terror. Ao lado de John Carpenter e Tobe Hopper, Wes Craven sustentou o gênero com seriedade e boas produções, inclusive na decadente década de 1980, quando inaugurou sua bem sucedida Hora do Pesadelo, franquia seminal entre os amantes do horror.

Pois bem, com Pânico, Wes Craven, ao lado do roteirista Kevin Williamson, subverteu completamente o gênero slasher, transformando aquilo que seria o motivo da decadência do estilo em sua força motriz. Para isso, adotou um tom autorreferente, que com o passar do tempo acabou se tornando um jogo, no melhor estilo BBB, entre os participantes/sobreviventes. 

Na trama, a jovem Sidney Prescott (Neve Campbell) vive “encolhida” entre os moradores da pequena Woodsboro, pelos julgamentos que fazem sobre sua mãe, Maureen Prescott, assassinada um ano antes de forma misteriosa. Com um suspeito na cadeia, Sidney tenta tranquilizar sua consciência com a certeza de que todos estão errados sobre sua mãe, e de ter feito justiça ao ajudar a deter o suspeito Cotton Weary (Liev Schreiber). Tudo vai bem, na medida do possível, até que estranhos assassinatos começam a ocorrer ao seu redor.

A característica “inovadora” do assassino é a consciência de querer criar um cenário de filme de terror. Ele contata as vítimas por telefone e propõe um quiz (rssssss) cheio de pegadinhas, e abate sem a menor cerimônia aqueles que erram suas perguntas. Some a isso a existência do personagem Rhandy, funcionário de locadora de vídeo (saudosas locadoras) fanático por terror, e que atua como um “guia espiritual” dos principais alvos do maníaco, ao discriminar a atuação deste e enquadrá-las nas regras (clichês) dos slashers. 

Nessa altura, Pânico talvez não fosse ainda uma trilogia, e tampouco uma franquia com muitos produtos e figuras icônicas no imaginário do entretenimento como é hoje. A genialidade tão exaltada desse primeiro filme vem, então, de um oportunismo muito bem vindo que só os gênios conseguem captar. Aliado a isso, uma produção mais requintada que a maioria nos proporciona uma boa experiência audiovisual, que satisfaz não só os novos fãs (de 1996) como os antigos.

A cena de abertura é um clássico absoluto do cinema, coisa que nenhum slasher jamais conseguiu reproduzir. Ela é por si um filme (um curta), com uma das sequencias mais hipnotizantes e um dos  encerramentos mais brutais entre os filmes do período - e tudo feito com muito esmero, nada de tranqueira, tanto que as cenas de abertura se tornaram algo especial e quase ritual dentro da franquia. Ao longo do filme, os sustos falsos existem, a trilha sonora crescente também, assim como impulsos idiotas (mas não inverossímeis), características que ressoam nesses filmes desde a década anterior e se tornaram a marca principal, infelizmente, de uma série de outras produções semelhantes realizadas a partir dali. 

Enfim, Pânico é massa. Talvez seja o slasher definitivo. A quantidade de sequências e a fama dos slashers talvez o coloque no bolsão de filmes malacabados do gênero, mas trata-se de um produto diferenciado e que merece todo o alvoroço que há ao seu redor. Agora é aquela coisa: é um filme de nerd pra nerd (nerd de terror rsss), uma genialidade que poucos vão saber desfrutar.

Nota 5/5


Ficha Técnica

Título original: Scream
Ano de lançamento: 1996
País: Estados Unidos
Direção: Wes Craven
Roteiro: Kevin Williamson
Produção: Cathy Konrad, Cary Woods
Distribuição: Dimension Films
Elenco: Neve Campbell, David Arquette, Courtney Cox, Matthew Lillard, Skeet Ulrich, Jamie Kennedy, Rose McGowan, Drew Barrymore

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sexta-feira, 4 de março de 2022

El Exorcismo de Dios (Alejandro Hidalgo, 2022): Inovando de leve.


Sempre surge um novo filme de exorcismo pra confirmar que esse subgênero, um dos mais rentáveis do terror e que até hoje é carregado nas costas pelo sucesso d'O Exorcista do Willian Friedkin, não tem mais pra onde ir. Por mais que muitos filmes novos tragam uma novidadezinha aqui e outra ali, nada é ousado o suficiente pra destacar um novo clássico sobre exorcismo. O novo Exorcismo Sagrado (El Exorcismo de Dios), ainda em cartaz nos cinemas, é mais um dessa leva, que promete muito e entrega pouco. Mas o que entrega, é bom.

A produção mexicana tem a direção de Alejandro Hidalgo, e narra a história do padre Williams (Will Beinbrink), pároco estadunidense que atua junto a uma comunidade no interior do México, e que é chamado para realizar o excorcismo de Magali (Irán Castillo), que está possuída pelo demônio Balban. Durante o ritual, o padre é possuído e tem relações sexuais com Magali. Anos depois, isolado pela culpa (por ter cedido aos caprichos do capiroto e violentado a moça), ele guarda o estupro em segredo, até que é chamado para realizar um novo exorcismo, e o passado precisa vir à tona. 

O grande mérito desse El Exorcismo de Dios (o título original faz mais sentido que o brasileiro, como sempre) é trazer uma nova abordagem acerca da velha batalha entre bem e mal, dicotomia na qual essas histórias são completamente afundadas. Aqui, temos uma outra perspectiva sobre a dimensão que as articulações do demônio tomam após ingressarem sorrateiramente no mundo "dos vivos" por meio de possessões pontuais. A crítica à Igreja Católica é forte, e esse olhar pode ser trabalhado com mais força em produções futuras.

A trama de Hidalgo, que também é um dos responsáveis pelo roteiro, é bem boa, e a história do padre Williams e de Magali são bem desenvolvidas. Mas o filme peca na sua condução, exagerando nos clichês/"homenagens" (principalmente no segundo ato) e transformando um ritual de exorcismo num ataque zumbi (algo também ousado, se formos pensar). E apesar de um segundo ato morno que testa nossa paciência, o filme inova com um terceiro ato bem diferente e até eletrizante. 

El Exorcismo de Dios é uma das várias e levemente criativas produções mexicanas que vem sendo lançadas nos últimos anos e ganhando espaço, principalmente nas plataformas de streaming. Alejandro Hidalgo trata de se livrar do fantasma d'O Exorcista de Friedkin (um encosto, que faz ele repetir até a fotografia do filme clássico) e busca um caminho ousado e diferente, ainda que falhe em muitos momentos, mas isso faz parte. Só de dispensar a fórmula consagrada pelo Friedkin logo no primeiro ato já é um grande avanço e vale a conferida. 

Nota: 3,8/5


Ficha Técnica

Título original: El Exorcismo de Dios

Ano de lançamento: 2022

País: México

Direção: Alejandro Hidalgo

Roteiro: Santiago Fernandez Calvete, Alejandro Hidalgo

Elenco: Joseph Marcell, Maria Gabriela de Faria, Will Beinbrink

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